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A potencialidade criativa da ruptura

É comum que em nossas vidas procuremos certa estabilidade ou até mesmo algo que nos forneça o previsível como uma forma de nos organizarmos, uma forma natural e necessária buscada pela nossa inteligência para consolidar ou fixar processos pelos quais possamos institui-los como nossos próprios modos de vida. Assim construímos nossa carreira, nossa família, nossa identidade etc. Por outro lado, as crises e os abalos que irrompem e desestabilizam nossa vida surgem muitas vezes em momentos inesperados quando aparentemente tudo caminhava bem. Percebemos a certa altura que as coisas não mais caminham como antes, o que no passado fazia sentido talvez não faça mais no presente. Esses momentos são frequentemente vistos como um ponto final—um fracasso, uma ruptura a ser lamentada ou muitas vezes negada. Mas e se mudássemos radicalmente essa perspectiva? E se a crise não fosse o fim da linha, mas sim um limiar necessário para a transformação e a criação de novos sentidos?

É essa visão revolucionária que o pensador francês Gilles Deleuze trabalha em sua obra: “Lógica do Sentido”. Para ele, a crise que inaugura algum tipo de colapso em nossa vida, seja no âmbito do trabalho, na família, no amor ou em nossa saúde não é um acidente ou algo que deve necessariamente ser recusado ou lamentado apesar da dor, mas um processo intrínseco à vida e à evolução dos sistemas, das organizações e dos indivíduos. A crise emerge precisamente no ponto de tensão entre dois planos, como uma fenda que se abre entre o plano da organização que estabiliza nossa vida, que são estruturas fixas como nossa identidade, profissão, papel social e no plano do desejo, que são o das intensidades, das ideias nascentes, da criatividade bruta e dos afetos que constantemente pressionam e desafiam o status quo. Ela é o momento em que a pressão dessas “forças moleculares” inconscientes — o “processo desejante”—se torna tão intensa que as “linhas duras” da nossa vida, aquelas que concernem ao estável não conseguem mais contê-las e se fraturam. A ruptura acontece como processo necessário de transformação em consequência das mudanças qualitativas que sofremos ao longo da vida, ou seja, mudanças afetivas, o nascimento de novos desejos, percepções e pensamentos que constantemente estão em movimento de transformação e que levam necessariamente a um novo modo de trabalhar, de se relacionar, de sentir e de viver.

Longe de ser um simples colapso, Deleuze vê essa ruptura como uma “singularidade”, sem a qual o “novo” não surgiria. É um ponto de virada onde as antigas configurações se mostram insuficientes e o modo como estávamos vivendo exige novos arranjos e composições, levando à criação necessária de um novo sentido para a vida, com a condição de afirmarmos os momentos dolorosos para encontrarmos neles o seu potencial criador. Nesse sentido, podemos compreender o caráter necessário das dificuldades e adversidades em nome de um novo modo de conectar-se consigo, com os outros e com o mundo. Sem a crise que desfaz as relações antigas e estabilizadas, a novidade radical não pode emergir, ou em outras palavras, os novos arranjos da vida trazem em seu DNA a história da crise que os gerou.

Para Deleuze, a postura ética implica em ver as rupturas e mudanças que a vida nos traz de modo afirmativo, para navegarmos não só na estabilidade, mas também na incerteza e no imprevisível que são também constituintes da vida e da natureza, para desta forma experimentar novas combinações e confiar no processo criativo inerente à vida.

“Hesitamos, por vezes, em chamar de estoica uma maneira concreta ou poética de viver, como se o nome de uma doutrina fosse muito livresco, muito abstrato para designar a mais pessoal relação com uma ferida. […] Assim como acontecimentos se efetuam em nós, e esperam-nos e nos aspiram, eles nos fazem um sinal: “Minha ferida existia antes de mim, nasci para encarná-la” […] Ou a moral não tem sentido nenhum ou então é isto que ela quer dizer: não ser indigno daquilo que nos acontece. Ao contrário, captar o que acontece como injusto e não merecido (é sempre culpa de alguém…), eis o que torna nossas chagas repugnantes, o ressentimento em pessoa, o ressentimento contra o acontecimento […] [devemos querer] agora não exatamente o que acontece, mas alguma coisa no que acontece, alguma coisa a vir de conformidade ao que acontece […] Que haja em todo acontecimento minha infelicidade, mas também um esplendor e um brilho que seca a infelicidade e que faz com que, desejado, o acontecimento se efetue em sua ponta mais estreitada […] O brilho, o esplendor do acontecimento é o sentido. O acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é “no” que acontece o puro expresso que nos dá sinal e nos espera. […] Ele é o que deve ser compreendido, o que deve ser querido, o que deve ser representado no que acontece. Bousquet diz: “Torna-te o homem de tuas infelicidades, aprende a encarnar tua perfeição e teu brilho”. Não se pode dizer nada mais, nunca se disse nada mais: tornar-se digno daquilo que nos ocorre, por conseguinte, querer e capturar o acontecimento, tornar-se o filho de seus próprios acontecimentos e por aí renascer, refazer para si mesmo um nascimento, romper com seu nascimento de carne. Filho de seus acontecimentos e não mais de suas obras, pois a própria obra não é produzida senão pelo filho do acontecimento.”


Gilles Deleuze – Lógica do Sentido

Antonio Carlos – Psicólogo Clínico
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